O BARCO JABUTI DO RIO ACRE.
LENTO OU VELOZ?
(usei muito esse transporte público)
Gilberto A. Saavedra – jornalista. O contador de histórias acreanas não contadas.
Nesse tempo passado, eu tinha um irmão
que morava no primeiro lado da cidade de Rio Branco,
mas trabalhava no segundo, que ficava do outro lado do rio Acre.
Ele se chamava Moacir, aliás, eu tinha dois irmãos com esse mesmo nome. Incrível, né?
era mecânico (de mão cheia) de embarcação, era o mais velho; o outro Moacir era funcionário do Banco do Brasil. Os dois infelizmente faleceram.
Certa vez ele (o primeiro citado), me levou para o trabalho dele, uma firma de funilaria (técnica em trabalho em lata ou em folha de flandres). Eu gostei; de vez em quando eu comparecia.
Lá eu ficava olhando como eles soldavam porongas.
Poronga para os que não sabem é uma luminária (lamparina) que o seringueiro coloca na cabeça para enxergar à noite, durante o percurso das estradas do seringal.
Seu combustível mais frequente é o querosene ou o óleo. Coisa de nossa terra ‘Amazônia’.
Nessa época, eu era pré-adolescente. Já gostava de trabalhar, de fazer qualquer coisa.
Dinheiro que é bom eu nunca ganhei. Kkkk! Acho que escolhi a profissão errada para fazer fortuna.
O BARCO JABUTI - MEIO DE TRANSPORTE GRATUITO
O nosso deslocamento para o trabalho do outro lado da cidade era através de catraias. Mas, o meu irmão Moacir, passou a usar um serviço paralelo gratuito, que era bancado pelo governo.
O barco, era do mesmo modelo das catraias, porém, bem maior.
Infelizmente, era usado um só barco durante todo o dia.
Consequentemente, a espera no ponto de embarque do barco para atravessar o rio se tornava demorada, além do mais, o barco por ser maior, pesava mais e com isso ficava mais lento na travessia das águas do rio Acre.
Com todos esses ingredientes negativos, muitas pessoas evitavam-no de usar, principalmente, no período das enchentes (alagados) que tinha fortíssimas e perigosas correntezas e estávamos vivendo esse período.
Por causa de todos esses atributos ao barco, a população denominou-o com o nome de: “JABUTI”. Preguiçoso e vagaroso, igualzinho a uma ‘jabota ovada’.
Mas era pontual. Partia no horário determinado com passageiro ou sem ele.
Tinha o mesmo sistema das catraias, um condutor e os dois remos.
Na hora de zarpar, tinha que subir o rio alagado (remar contra correntezas fortes), deslocando-se até uma determinada distância, para só depois, de rio abaixo, fazer a perigosa travessia.
Se não fizesse esse procedimento (devido ao seu peso), não conseguiria ancorar no ponto de desembarque do outro lado e vice-versa.
E o grande Jabuti zarpou. Inicialmente seu movimento era feito perto da beira (margem) do rio por serem as forças das águas mais fracas.
O condutor passou a remar e o cascudo barco “O Jabuti”, lentamente começava os seus primeiros movimentos n’água.
Tão devagarzinho devido ao seu tamanho e peso, além dos passageiros, que parecia (nos dava essa impressão) que o barco ainda estava parado no mesmo lugar.
Mas estava se deslocando. – Ah, mais estava! Aos passos de jabuti, com aquela “calminha”.
O condutor, porém, com os braços e as mãos usava todas suas forças nos dois remos. E o Jabuti lentamente ia subindo o rio, travando uma luta danada contra as fortes correntezas, como se elas dissessem: “Eu não vou deixar você subir”.
De repente: fixei o meu olhar no condutor do cascudo e notei que ele, era um homem já de meia idade, bem franzino.
Também percebi em seu olhar, um olhar distante (no horizonte) parecia nos ignorar (os passageiros).
O que ele estaria a pensar naquele momento tão inoportuno. Gostaria imensamente de saber.
Nisso o Jabuti ainda continuava subindo pelas margens do rio de águas barrentas bem calmamente, quase parando.
Mas o manobreiro usava todas suas forças para vencer as traiçoeiras correntezas.
Finalmente, o lento barco consegue chegar ao limite do ponto imaginário de subida, para só então, o condutor manobrar o barco para a travessia.
Numa fração de segundos, aquele homenzinho franzino, de braços finos, num movimento rápido e bem profissional (de quem entende muito da coisa) começa a descer com o barco de rio abaixo. Agora ele tem ao seu lado o apoio (ajuda) das fortíssimas correntezas.
Vai remando com mais força física ainda para o meio do rio e manobrando a embarcação para outro lado da margem;
O barco toma a posição diagonal às águas; as batidas e o chacoalhar no lado do casco fazem o barco balançar;
Rapidamente, o Jabuti ganha um rápido desenvolvimento na travessia; a velocidade adquirida é ainda maior.
Como aquele cascudo tão lento e paciente, subitamente consegue atingir tamanha rapidez.
Ficava eu a pensar: como aquele pequeno e magro homem, alcançava essa incrível proeza.
Tinha receio, de que ele não pudesse ter força suficiente, para vencer as forças das águas do rio alagado, e não conseguir ancorar do outro lado do rio, no lugar certinho de desembarque, no ponto do Jabuti no 2° Distrito de Rio Branco.
Missão cumprida. Todos sãos e salvos! Já em terra firme (fora do barco) eu e meu irmão Moacir, aliviados do susto que passamos. Ufa!
Olhei para trás, e vi o grande barco Jabuti (inerte) e o seu franzino condutor (ambos aptos) para a próxima partida lenta ou veloz, “Se Deus Quiser”.
(Gilberto A. Saavedra) - ano 2015
Contador de histórias acreanas.
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